Suspensões irresolutas

Diante das imagens de Apto 22, temos a sensação de que estamos no meio de uma narrativa, com os personagens absortos em ações misteriosas que se tornam para nós, espectadores, carregadas de tensão. Pouco se decifra: em primeiro lugar, temos uma só ou várias narrativas? Trata-se da mesma
personagem? Esta é vítima ou criminosa?


Adriana Granado produziu autorretratos durante os dois anos em que morou em diferentes apartamentos ou quartos alugados na cidade de São Paulo. A série se filia à tradição da fotografia encenada, cultivada por nomes como Cindy Sherman e Jeff Wall.

 

Assim como na obra desses artistas, as imagens de Granado nos remetem ao cinema, especialmente ao gênero de suspense. No entanto, mesmo próximo ao cinema, a peculiaridade de Apto 22 deve ser reforçada e explorada. Não podemos nos esquecer: antes de tudo, trata-se de fotografias. Tal condição se traduz numa diferença inescapável em relação à narrativa cinematográfica, pois o caráter de suspense não quer ou não pode ser resolvido. Mantemo-nos imersos, suspensos em uma inquietação em 3 tempos: “o que aconteceu?” (passado), “o que está acontecendo?” (presente) e “o que acontecerá em seguida?” (futuro) não solucionam seus enigmas. A esta flutuação estática no suspense, soma-se a potente construção plástica das cenas, que atua como elemento intensivo. A composição de cores fortes, a iluminação, os cenários e a encenação, pelo peso como são carregados, ampliam o mistério e a força das imagens.


Texto de Pedro Bonfim Leal para o catálogo da exposição Apto22, no Centro de Artes da UFF.
Rio de Janeiro/RJ, 2019.

 

 

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Irresolute suspensions 

  

Confronting the images of Apt 22, we have the feeling we are in the midst of an unfolding narrative. The characters are absorbed in shadowy behavior that for us, the viewers, are charged with tension. Explanation is not forthcoming: firstly, do we have only one or several narratives? Is it the same protagonist in each image? Is this a victim of a crime or the perpetrator? 

 

Adriana Granado produced self-portraits during the two years she lived in different apartments and rented rooms in the city of São Paulo. The series boldly follows the tradition of staged photography, cultivated by the likes of Cindy Sherman, Jeff Wall and Juno Calypso.

 

Similarly, Granado's images tack heavily towards cinema, especially the suspense and thriller genres. However, while acknowledging cinema as reference, the peculiarity of Apto 22 must be reiterated and the pictures beg to be explored further. We cannot forget the fact that these are photographs and not film stills from a moving image. Such a condition translates into an inescapable difference in relation to the cinematic narrative - the murky character of the images does provide the possible closure of a solved mystery - there is no resolution. We remain immersed, suspended in a triad of inquiry: “What happened?” (Past), “What is happening?” (Present) and “What will happen next?” (Future). In addition to this static fluctuation in the suspense, there is the powerful plastic construction of the scenes. Intensity is heightened by the composition of strong colors, the lighting, the scenery and the staging. Their calculated weight carry the story, amplify the mystery and strengthen the images’ charge. 

 

Text by Pedro Bonfim Leal/ Translation by John O´Donnell